sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ela diz que não é de nada
Ela diz que não é de ninguém
Se sente por pouco tempo
Como parte das lembranças de alguém
Ela sente que é assim quando se parte
que é somente uma consciência
E só existe quando alguém
Sente o cheiro da sua ausência
É só uma egoísta forma de ser algo
De ser essência
É um espírito acoplado em carne ambulante
É um vago odor de corante
De morango
Numa noite de baile dançante
Num mundo onde ela é o que o mundo determina a ela ser
Só é menina antes de envelhecer
Num mundo que primeiro dói depois se chora
Não é assim onde ela mora
Lá não existe lágrima
Se existe não escorre
Se evapora...
Não existe barulho de vidro cortante
Existem imagens feitas de instantes
Pega um rosto no vapor
O beija e sente o ardor
E desmonta seu pavor pra ver o que tem dentro
Mora aonde as coisas verdadeiramente possam ser
Primeiro se põe o sol e
Depois o amanhecer
E estabelece a ordem das coisas
E as vezes acredita no que vê
É o que é porque assim tem que ser
Não é morta nem viva
Pra sempre vai viver
O metal soa estrondoso
Avisando que a porta se abre
Quebram-se borboletas de vidro
E ela pega e nelas pisa pelo chão
Transformam-se em lagartas as cartas no portão
Pisa sozinha no escuro sem medo de nada
Porque não é ninguém
Nem mesmo sombra de alguém
E lá encontra outra mão fria
Na escuridão quando o chão dos seus pés desabam
E as mãos sabem que devem ficar
Atadas
Mas então o dono da mão acorda
E pra ela não resta mais nada
Só o sol nascendo lá no fundo
Dissipando aquele escuro
Aquele nada...
E volta para o mundo de som , de cor e de texturas
De cheiros, de morte e sepulturas
Lá não se morre
Porque não precisa nascer no sofrer
Lá não se morre de amores
Se vive de tanto viver...




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