domingo, 19 de junho de 2011

O óbvil em tudo

Não tem hora do dia para que as coisas se tornem óbvias demais
E isso incomoda... o latido exato dos cachorros
o vento gelado entrando pela fresta da janela
a exatidão das pessoas dormindo e a memória saltando pelos ouvidos em cores
de diversas cores
de diversos sons
e cheiros
e gostos
Então queria sentir o gostinho e o cheiro de chiclete de morango da minha infância
Mas ao invés disso vem fumaças de cigarro e o gosto ácido de vinho misturado com choro.
e meu corpo então parece que é de gesso com alguma coisa rompendo lá dentro que não consegue sair e que sobe pela garganta e quer gritar...
Lembro até do quanto era quente o ventre...
e da minha alma se perguntando :
-Terei mesmo que ser humano?

Carta em branco

De tão magnético em mim
Fica escrita no canto
Do olho do encanto
Fica dentro de mim
O vazio de branco
O vazio de tanto
De querer assim no vazio de um copo sem fim...no vazio de um corpo que invento pra mim

terça-feira, 7 de junho de 2011

O coração desnorteado não bate
se remexe no meu peito vazio
cheio de sangue
ele jorra sangue
ele lembra de ti

A carne mole não pulsa
se endurece no meu tórax cheio de amor
cheio de água
cheio de odor

Meu coração doado
danificado e esquartejado
vira rubi
cheio de veias
cheio de rios
que nadam sereias
e fabrica arrepios

Meu coração de animal
sem razão
só de instinto
vive em erupção
vira vinho tinto

Meu peito
que abriga
meu peito aberto que obriga
bater de calafrios
meu sangue por ti...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ela diz que não é de nada
Ela diz que não é de ninguém
Se sente por pouco tempo
Como parte das lembranças de alguém
Ela sente que é assim quando se parte
que é somente uma consciência
E só existe quando alguém
Sente o cheiro da sua ausência
É só uma egoísta forma de ser algo
De ser essência
É um espírito acoplado em carne ambulante
É um vago odor de corante
De morango
Numa noite de baile dançante
Num mundo onde ela é o que o mundo determina a ela ser
Só é menina antes de envelhecer
Num mundo que primeiro dói depois se chora
Não é assim onde ela mora
Lá não existe lágrima
Se existe não escorre
Se evapora...
Não existe barulho de vidro cortante
Existem imagens feitas de instantes
Pega um rosto no vapor
O beija e sente o ardor
E desmonta seu pavor pra ver o que tem dentro
Mora aonde as coisas verdadeiramente possam ser
Primeiro se põe o sol e
Depois o amanhecer
E estabelece a ordem das coisas
E as vezes acredita no que vê
É o que é porque assim tem que ser
Não é morta nem viva
Pra sempre vai viver
O metal soa estrondoso
Avisando que a porta se abre
Quebram-se borboletas de vidro
E ela pega e nelas pisa pelo chão
Transformam-se em lagartas as cartas no portão
Pisa sozinha no escuro sem medo de nada
Porque não é ninguém
Nem mesmo sombra de alguém
E lá encontra outra mão fria
Na escuridão quando o chão dos seus pés desabam
E as mãos sabem que devem ficar
Atadas
Mas então o dono da mão acorda
E pra ela não resta mais nada
Só o sol nascendo lá no fundo
Dissipando aquele escuro
Aquele nada...
E volta para o mundo de som , de cor e de texturas
De cheiros, de morte e sepulturas
Lá não se morre
Porque não precisa nascer no sofrer
Lá não se morre de amores
Se vive de tanto viver...




quarta-feira, 1 de junho de 2011

Quando eu...

caio no espaço negro de galáxias coloridas
minha mão se esvai no nada
no mundo das lembranças esquecidas
no lodo das alegrias contidas
que por serem belas e explosivas
são comparadas com flores de uma noite
ou apenas...
parecidas.


terça-feira, 31 de maio de 2011

(O salto fino riscava o asfalto molhado daquela tarde)

Tirando o corte fundo...

A luz vermelha de sua boca é só o que arde

Anda em círculos pela redondezas

Procurando nos cantos dos quadrados

Onde ficou a leveza.

Entre travestis plumas e embriagados

Dançando a valsa dos acordados

tropeçando em mendigos e cachorros.

Vertendo conhaque na calça de couro.

Virando vitrine de vagabundo,

virando a esquina do mundo.

Cortando o caminho

Como quem parte um pedaço de pão

Comendo o carinho

O miolo do vão...

O recheio da vida

Se come com a mão

Contendo alegria nas coisas que conta

Contando tristezas que tenta conter

Revertendo o palco da vida que monta

O que de fato não queria esquecer

É um quase nada de importante

Era um quase enfeite de estante

É quase aquilo que não quer ser

É uma menina longe e distante

Que injeta adrenalina o bastante

Pra não se entorpecer

De delírios em branco

Porque ninguém os vê

E quando ela o pega com as mãos

Volta a ser velha

Cospe no chão

Enche de folhas a panela

Que viram estrelas que

Enche o céu que é só dela

E então volta a ser a dama que baila no vapor

Que dança no fogo

Que conhece o amor

Pois o amor é só dela

Preso num ventre

E o rancor o congela...

E então o sol da manhã parece que é dela pois

De tanto ouro o amor...

Degela....

Mas volta a ser flor

Como outra qualquer de primavera

E assim quando volta a ser velha

São pétalas secas que guarda com ela

É a mão que sua frio

É a mão que espanca os sonhos dela

É a mão que tece sonhos

Que aquece o corpo e gela

Vivendo num emaranhado de existir

Pairando como um pássaro baleado a cair

Desabando na tua vida

Novamente a se despir

Mostrando o corpo oco

Que tenta expelir

O vazio que preencheste

Durante esse tempo todo a cuspir

No chão que nasce flores

Porque devo engolir?

São sentidos implodidos

São memórias apagadas

Da tua mente fresca

Da tua mente perturbada

São frases sem sentido

São areias já pisadas

São corações espremidos

por decisões impensadas

e então me esbarro em mentiras

em verdades bem contadas

rompendo o portão

das palavras condenadas

como tempestade de areia

que voam para o nada

é assim a distância...

que mora e é presente na minha estrada...